3 de novembro de 2010

Ser assembleiano...

por Marcelo Lemos

Eu sempre soube, de ouvir falar, que tradicional não gosta muito de pentecostal. Igualmente, sempre tive conhecimento, por experiência, que pentecostal não gosta muito de tradicional. Estou generalizando, evidentemente. Então, é com muita alegria que recebo notícias de cristãos carismáticos que se aproximam da teologia reformada, e de crentes tradicionais que se abrem ao diálogo com os ‘pentecas’, outrora tidos como a escória do protestantismo pelas elites religiosas, sociais, econômicas.

Não é incomum que eu receba conselhos no sentido de deixar a comunhão assembleiana. São irmãos em cristo que me falam de como o pentecostalismo está saturado de excessos emocionais, e até místicos; de como o pentecostalismo se aliou ferinamente a soterologia arminiana, e a uma escatológica fictícia. E, cá entre nós, preciso ser honesto e reconhecer que diversas vezes já desejei, e até tentei, abandonar o barco…

Por qual razão não o fiz? Humanamente falando eu poderia listar diversos motivos. O principal deles é que acredito em reforma; mas que isso, acredito no poder da Palavra de Cristo. Não pretendo ser um revolucionário dentro do pentecostalismo, ou desta ou daquela Igreja. Não quero mudar as coisas numa noite! Antes, quero pregar a palavra, e por ela, trazer cativo “todo o entendimento à obediência de Cristo” (II Cor. 10.5).

Como se faz isso? Estou tentando aprender! Todavia, constantemente tenho contemplado os frutos da fé bíblica em ação! Creio que até os mais preconceituosos reformados se surpreenderiam se passagens alguns minutos com alguns pentecostais que eu conheço. Pouco a pouco, a fé reformada está invadindo o arraial pentecostal e assembleiano. E estou convencido que nós, reformados, possuímos, teologicamente falando, a única tábua de salvação para a crise que parece se anunciar no horizonte do pentecostalismo…

Eu bem poderia tornar este artigo numa convocação aos assembleianos e pentecostais, convidando-os a conhecerem os pilares do pensamento reformado. Mas, pretendo justamente o oposto: explicar a quem possa interessar, aqueles que considero os elementos mais fascinantes da espiritualidade assembleiana. Em outras palavras, quero escrever sobre os bons motivos de ser um cristão reformado… e permanecer assembleiano!

FERVOR
Há uma intensidade na liturgia assembleiana que é maravilhosa. Certamente me lembrarão dos excessos existentes. Também os conheço. Todavia, é irracional destruir todos os carros, só porque o Zé da Esquina não sabe dirigir. Para o pentecostal, o Espírito Santo não é apenas uma “doutrina” fundamental do cristianismo. O Espírito Santo é uma pessoa, real, e presente na Igreja e na vida de cada membro do Corpo de Cristo.

Tenho observado que para muitos tradicionais, os grandes mover do Espírito na História deixaram saudades. Porém, a maioria deles não consegue ver, nem buscar, a atuação do Espírito hoje. Isso é estranho demais! É como se a ‘veracidade’ de um mover espiritual fosse santificado pela passagem do tempo! Ontem? Sim! Hoje? Não!

Alguns dirão que exagero na critica. Espero que realmente não esteja comigo a razão sobre este ponto. Porém, tenho visto coisas que beiram ao ridículo. Por exemplo, recentemente alguns reformados caíram na alma da Igreja Presbiteriana do Brasil. Qual o motivo? Simples: a referida Igreja manifestou apoio ao projeto Minha Esperança Brasil. Foi a gota d’água! Choveu acusações de que a IPB estaria abraçando o arminianismo!

Pessoalmente não apoio tal ministério, nem sua doutrina; porém, incentivei o mesmo, da maneira que pude. Por qual razão? O objetivo era anunciar a Cristo. Nisto, não há arminianos, nem calvinistas. Todos são cristãos testemunhando Jesus como Caminho, Verdade e Vida. Infelizmente, dos dois lados da ‘guerra’ existem aqueles que, por sua atitude sectária, parece crer que os demais não sejam pessoas salvas. Isso não é ser reformado – não era essa a atitude que Calvino demonstra nas Institutas, por exemplo. Ser reformado não é ser sectário, é ser um reformador!

Um outro exemplo diz respeito a Hernandes Dias Lopes. Até onde sei este estimado pastor é um cristão reformado, e aceita todos os cinco pontos da ‘Tulip’. Mas, ‘coitado’ (!), comete o terrível pecado de ser um evangelista… Então, em diversas comunidades do Orkut, chove imprecações contra um irmão em Cristo! Ora, e desde quando ‘evangelismo’ é coisa de arminiano, e contrário a fé reformada?

Há sempre o perigo de falarmos do poder do Espírito, da atuação do Espírito, e, entretanto, na hora H, ficarmos apenas no discurso. É verdade, admito, que em muitos casos o pentecostalismo tem um conhecimento teológico precário, mas os tradicionais podem aprender muito com eles quanto a confiar na atuação do Deus Triuno, não apenas no passado, mas hoje, agora! E a liturgia e o trabalho assembleiano é um testemunho vivo desta fé.

LIBERDADE
Acredito que pouca gente respeita tanto o principio reformado do ‘sacerdócio universal dos crentes’ quanto o pentecostalismo. Outra vez, desejo estar exagerando. Na liturgia assembleiana clássica, acredita-se que a ‘Vox Dei’ esteja disponível a qualquer um dos seus servos, e não apenas ao ministro ordenado. Aliás, normalmente o assembleianismo desconhece os conceitos clássicos sobre “ministro” e “leigo”. Todos sãos “vasos” a serem utilizados pelo Senhor.

E engana-se quem pensa que estou falando de “profecias”. Estou referindo-me a todos os aspectos da liturgia. É verdade que ainda precisamos caminhar bastante no que diz respeito a “ordem e decência”; contudo, pouca gente leva tão a sério quanto nós a ordem de Paulo sobre “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para a edificação” (I Cor. 14.26).

Já fui a diversos cultos ‘tradicionais’ e nunca vi este mandamento ser levado a sério! Normalmente há um dirigente de culto, um dirigente de louvor, e um pregador ao final.

Na liturgia assembleiana a coisa é diferente. Todos podem falar, cantar e até pregar. Não existem clérigos, nem existem leigos. Somos todos sacerdotes de Cristo.

Para os meus irmãos assembleianos fica um alerta: não permitam que lobos tirem tal liberdade de vocês. Estou pensando agora nos conceitos neopentecostais sobre “cobertura espiritual”, e outros abusos eclesiásticos, que ameaçam várias de nossas Igrejas e ministérios. Meus queridos, historicamente jamais aceitamos que qualquer pessoa fosse “maior” ou “especial” – e não podemos abrir mão de nossa liberdade agora!

E uma vez mais percebo que os cristãos, reformados e carismáticos, podem aprender uns com os outros.

SERVIÇO
Recentemente me mudei para um determinado bairro aqui da capital paulista. Tendo decidido encontrar uma igreja reformada para visitar (trata-se de algo que gosto de fazer), não tive nenhuma surpresa ao descobrir que não havia nenhuma a menos de 40 minutos da minha casa. Isso jamais acontecerá a um assembleiano; a menos que ele se mude para onde Judas perdeu as meias!

Alguns dirão que é impossível que as igrejas tradicionais cresçam e mantenham a hegemonia doutrinária. Penso diferente. Ora, as Assembléias de Deus possuem Igrejas em praticamente todos os bairros, e a maioria de suas congregações é dirigida por obreiros sem nenhuma formação teológica, ou com apenas algum curso básico de teologia. Mesmo assim, as Assembléias de Deus se mantém muito unidas quanto aos seus princípios.

Alguns exemplos que posso indicar de memória: Assembléia de Deus – Ministério do Belém; Assembléia de Deus – Ministério São Bernardo; Assembléia de Deus – Ministério Belo Horizonte (Missão); enfim. Só em São Bernardo do Campo o Ministério do Belém possui algo perto de 45 congregações. Nesta mesma cidade, o Ministério São Bernardo, atualmente dirigida pelo pastor Tarciso, que foi diretor do Seminário onde iniciei meus estudos teológicos, tem mais de 150 congregações! E mesmo assim, são ministérios unidos, e contam grande homogenia interna quando a costume e doutrinas! E são independentes um do outro… Cada ministério tem sua Sede, alguns tem até convenções próprias, etc.
 
Não parece haver escapatória aqui. Ou os cristãos reformados precisam classificar estas pessoas como “não salvas”; ou então, precisam admitir que estão trabalhando menos do que poderiam. A luz do que a História nos ensina, é muito mais seguro concluirmos que boa parte dos reformados de hoje não está alinhada com uma das maiores ‘paixões’ do calvinismo histórico: a evangelização!

Alguém deve estar pensando quem me esqueço dos problemas que o modelo assembleiano provoca. Também tenho consciência deles. E não estou propondo que o modelo assembleiano seja o certo, nem o ideal. Estou apenas tentando ilustrar o fato de que a fé reformada poderia estar muito mais inserida na nossa sociedade, mesmo que para isso fosse preciso colocar os ‘leigos’ nas ruas, avenidas, morros e favelas!

Neste sentido, tenho orgulho de ser assembleiano. Quantas vezes preguei em Igrejas localizadas em morros tão mal iluminados que, na volta para casa, pedíamos para ser acompanhados por algum irmão da Igreja! E aquelas vezes que preguei em favelas nas quais era preciso pedir autorização do ‘chefe’? E as vezes que preguei no interior, tendo como audiência, inclusive, alguns bois e alguns gansos?

Ahh! Que saudades temos, minhas esposa e eu, das congregações do Lajedo e do Mirante! E a congregação do Novo Arão Reis? Que história maravilhosa a de vocês, meus amados! – um pequeno grupo de jovens que decide evangelizar uma favela, ganha um morador para cristo, começam algumas reuniões, e hoje, temos uma nova Igreja! Ria-se quem quiser, mas só de escrever este parágrafo as lágrimas se aproximam dos olhos!

Concluo reafirmando ter plena consciência dos erros e dos desafios que estão a nossa porta, assembleianos. E reafirmando a minha convicção no poder da Proclamação do Evangelho. 

Paz e bem.

3 comentários:

Elton Morais disse...

Assino em baixo!

Em Cristo,
Elton Morais

Rev:Valdir Davalos disse...

Olá apaz estava lendo sua matéria sobre ser assembléiano você diz que é um reformado muito bem ,não vai demorar muito pra você encontrar dificuldades isso se você realmente pregar a doutrina Reformada lá porque a verdades bíblicas incomoda muita gente e até o diabo quando isso acontecer encare com firmeza e base bíblica já que você é professor de escola dominical , lembrando que existe muitas pessoas pentecostal que é Reformados mas não se manifesta de medo da represália , porque é estranho pentecostal Reformado, a Reforma não é contra o avivamento mas desde que seja bíblico não como nós vemos nos tempos de hoje principalmente no Brasil .

Cleison Brugger disse...

Olá reverendo, prazer tê-lo aqui.
Bem, primeiramente, como o amado deve ter percebido, o texto não é meu, contudo, comungo do mesmo pensamento esposado acima.

Infelizmente, a estranheza que o amado acha na ligação entre reformado e carismático é puramente histórica, pois segundo a Santa Palavra, elas se unem, dão as mãos e fazem um belo par. Palavra por Palavra é fanatismo; poder por poder é loucura.

Crer que o Espírito Santo não é apenas uma "doutrina fundamental", mas que está vivo e operante no seio de sua igreja,não é ser anti-bíblico, é ser um carismático apaixonado por Deus.

Crer que a Santa Escritura é inerrante, imutável e infalível, e através desta, chegar nas doutrinas da graça não é ser fanático, é ser um reformado convicto da Soberania e da glória de Deus.

Não há oposição entre as duas, pelo contrário, elas se unem e formam um belo conjunto.

A fraqueza que os carismáticos podem estar sujeitos é a tendência de colocar mais confiança em impressões subjetivas e sentimentos do que na Bíblia, mas estou vacinado contra esta tendência, pois sou apaixonado pelo Espírito Santo ativo no meio de sua igreja, nos concedendo seus dons de forma plena para a edificação pessoa e mútua, e sou apaixonado pelas Escrituras Sagradas que me dão instrução abundante e que é a Palavra final para tudo, em mim.

Recomendo a leitura deste post: http://cleisonoliveira.blogspot.com/2010/09/o-novo-calvinismo-e-fervoroso-e.html

Postar um comentário